Thami Schweichler transformou coletes salva-vidas em merchandising

Para um refugiado, um colete salva-vidas é esperança; para um holandês, é um colete com a cor do seu país. Thami Schweichler entende o design como uma forma de ligar pessoas e através da empresa social Makers Unite conseguiu juntar, à volta da transformação de coletes salva-vidas, holandeses e refugiados – ou melhor, recém-chegados que têm aqui uma oportunidade de usar os seus talentos.

Thami Schweichler fala português – viveu no Brasil até aos 20 anos – mas vive hoje na Holanda, de onde é natural a sua mãe. O designer – que desde cedo viu potencial no seu trabalho para a intervenção social e humanitária – está em Lisboa para participar no Greenfest, um “festival de sustentabilidade” com várias palestras, que começa quinta-feira no Campus da Universidade Nova SBE de Carcavelos.

A presença num evento sobre ecologia (subordinado desta vez à água) pode justificar-se com a reutilização que Thami e o seu projeto começaram por fazer dos coletes salva-vidas. “Em 2015 o maior problema social na Holanda era a crise dos refugiados. Senti que podia fazer alguma coisa”, relembra. A associação onde era voluntário recebeu o desafio de uma ONG grega: trabalhar com um carregamento de coletes salva-vidas cor de laranja. Thami convocou toda a gente para discutir ideias à volta aquela peça. Refugiados, membros do governo e cidadãos holandeses responderam à pergunta: o que significa para si um colete salva-vidas?

Para quem fugiu às guerras em África a resposta era simples: esperança. “Atravessar o mar da Turquia à Grécia é a parte mais difícil do percurso e a única coisa a que se podem agarrar é o colete. O momento em que o tiram na praia é um momento de alívio. Não sabem o que vai ser a vida a partir dali, mas não vão voltar para a guerra”, resume Thami as experiências que ouviu, lembrando que, na altura, nos media mais sensacionalistas, o colete salva-vidas era, pelo contrário, símbolo de problema e crise.

A ideia de um objeto que é a forma palpável da esperança juntou-se às respostas directas dos holandeses. O que é um colete salva-vidas para eles? Um colete da cor da sua nação – o laranja holandês.

Thami juntou um grupo de refugiados e holandeses que transformou três mil coletes em fitinhas laranjas (como as da luta contra o cancro) que foram vendidas na rua no dia do rei, o feriado mais importante daquele país, quando toda a gente sai à rua vestida de laranja.

Angariaram fundos para entregar a ONGs que trabalham a integração de refugiados, mas sobretudo, com o trabalho conjunto entre refugiados e locais, os recém chegados fizeram amigos e encontraram oportunidades de trabalho ou de continuar a estudar.

Com um prémio atribuído pela ONU por causa desta ideia, Thami conseguiu fundar a Makers Unite que mantém o mesmo modelo: uma equipa de 14 formada por locais e por refugiados (com ligação a áreas criativas e que recebem formação sobre o mercado de trabalho europeu) que produzem linhas merchandising para marcas. “Chamo-lhe positive merchandising porque são marketing para as empresas mas também divulgam mensagens positivas”, resume e dá o exemplo de “meet me half way”, a linha que produziram para os gelados Ben&Jerry’s. “É importante que toda a gente veja os refugiados como pessoas com talento, vontade e potencial. Não meramente refugiados – isso é um status político. Usamos a definição recém-chegados porque é humanamente mais justo”, considera Thami.

Estes produtos já não são feitos a partir de coletes – um dos pontos essenciais neste momento é produzir em escala para dar viabilidade económica ao projeto – mas mantêm cosida a fitinha laranja, pedaço de um colete salva-vidas, que deu origem a tudo.

 

Fonte: Sabado

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